Para amar ao som de dor


Para amar ao som de dor

Nos conhecemos no segundo dia de aulas do ensino médio. Você sorriu de um modo bobo para mim quando nos esbarramos sem querer e ainda pediu desculpas. Mas foi só no terceiro dia que passei a sentar atrás de você na turma. Eu era novo ali, enquanto você já estava por dentro de tudo. Ficamos próximos no dia em que você me pegou chorando nos fundos da escola, e me fez sentir como se eu fosse a pessoa mais especial do mundo.

Desde então, uma coisa estava certa entre nós dois: éramos amigos. Mas as coisas foram mudando conforme o tempo ia passando. Ficávamos mais próximos até que eu me descobri numa situação digamos que um tanto complicada: eu estava apaixonado por você. Nunca tive coragem para te dizer, o eu de personalidade forte e determinada morria nessas horas. E você continuava me seduzindo, mesmo sem perceber, até com um simples sorriso.

Você foi o meu primeiro amor, e foi também a minha primeira obsessão. Eu ficava acordado horas e horas esperando uma mensagem tua e quando ela chegava, meu coração disparava. Eu olhava para a sua foto quase sempre antes de dormir para ter certeza de que não seria atormentado e de que, contigo, teria os mais belos sonhos.

Você foi o meu primeiro amor, e foi também a minha primeira decepção. Lembro como hoje do dia em que te peguei aos beijos e embalos com outra pessoa, outro alguém que não era eu. Isso doeu e eu fui egoísta, como todo ser humano é, desejando ter você só para mim. Eu queria sua felicidade, mas queria mais ainda que ela se concretizasse comigo.

O ensino médio acabou e mesmo que nós dois tenhamos essa relação de amizade forte como rocha, nunca tive coragem de me abrir sobre o meu sentimento com você. Eu ainda lembro, eu ainda te quero, eu ainda te desejo. Pena que não sou forte para admitir isso fora da minha mente.

Você foi o meu primeiro amor - só que às vezes o que sinto é tão forte que acho que você será também o último.

(Jhonatan Veloso)

Os dois


Os dois

A mulher teve dois filhos: o primeiro e o segundo. Para ela, sempre tratou-os da mesma forma, pena que isso era mentira.

Quando o segundo filho foi para a sua primeira festa e voltou para casa bêbado, a mãe reclamou e encheu-o de críticas. O primeiro voltou totalmente normal, praticamente não tinha bebido.

Outro dia, o primeiro filho limpou a casa e organizou tudo nos armários, quando ela chegou, falou mal do segundo, chamou-o de preguiçoso, de vagabundo, disse que não fazia nada que prestasse, quanto ao primeiro filho, nem um "obrigada".

Quando o segundo filho chegou com o cabelo cortado num estilo que ela sempre criticou e julgou ser de "gente ruim", a mãe fez um discurso sobre como o filho fazia tudo para irritá-la. O primeiro filho optou por um estilo mais social, garoto comportado, pena que nem foi notado.

Uma vez, o segundo filho foi reprovado, praticamente foi lixado, enquanto o primeiro que fora aprovado, comemorou sozinho, coitado.

Então o segundo filho foi embora, não demorou para que o primeiro também formasse sua própria família. Quando cruzou a porta da casa, a mãe alegou que ele a deixaria sozinha. O primeiro filho não disse nada, partiu sem pronunciar uma sequer palavra. Ele nunca quis diminuir o irmão, só queria ser notado, amado, necessitava de atenção. Tanto esforçou-se para o agrado, fazendo tudo aos gostos da mãe, queria chegar o mais perto de ser um "filho perfeito", foi quando ele cometeu um erro, e inteiramente foi criticado. Hoje vive casado, promete que será um bom pai, mas sempre volta ao passado... Coitado, ele só queria ser notado.

(Jhonatan Veloso)

Escrito sem título de um jovem apaixonado


Escrito sem título de um jovem apaixonado

Eu quero
Quero teu sorriso
Quero tua fala
Quero teu carisma
Quero teu abraço

Eu preciso
Preciso do seu sussurro
Preciso do seu conselho
Preciso da sua ajuda
Preciso do seu beijo

Eu adoro
Adoro tua voz
Adoro teu cheiro
Adoro tuas manias
Adoro teu corpo inteiro

E eu te amo
Mas amo intensamente
E amo o teu jeito
Amo cada pedacinho
Da grande obra que tu és

Eu vou querendo tua fala, teu abraço
Mas preciso mesmo é do teu beijo de quem não quer nada
Eu adoro o teu corpo e o quero só para mim
Conheço cada pedacinho e te gosto assim
Te quero, te preciso, te adoro, te amo, te tudo, parte do meu eu.

(Jhonatan Veloso)

Qual a cor do nosso amor?


Qual a cor do nosso amor?

O amor não é vermelho, não, sentir-se amado ou estar amando é verde. Tão verde quanto uma folha que acaba de crescer numa árvore. Uma folha que permanece grudada à sua árvore mesmo em meio às chuvas e ventanias. Uma folha que vai crescendo conforme o tempo, ficando maior tanto em tamanho quanto em beleza, que, aí, permanece verde.

E o amor é isso.

Amar é isso.

Sentir-se amado é isso.

Um pequeno sentimento que nasce e vai crescendo com o tempo, que resiste aos fortes vendavais da vida e não cede às águas do destino que ameaçam levá-lo, arrastá-lo em meio à correnteza; permanecendo verde, sempre e sempre, até o dia em que mudar de cor, mesmo assim será uma cor forte, o amor será amarelo como folha antiga, prestes a envelhecer e se acabar. Mas, ainda assim, o amor permanecerá, na árvore do sentimento, em suas raízes terra adentro.

(Jhonatan Veloso)

130 anos


130 anos

"Hoje eu tenho 130 anos, isso não estava nos meus planos." Comecei a envelhecer mais depressa quando passei a dar mais valor às palavras duras, palavras de afronta, palavras sem cor, carregadas de horror e que me causavam dor. O tempo passa mais depressa quando você se deixa abater por palavras ruins, você envelhece tão mais rápido, vai perdendo o gosto pelas coisas que antes te faziam sorrir e que até te distraíam.

Então eu a conheci, mas... "Mas eu penso quanto mais velho estou me tornando." A cada briga, a cada discussão, a cada lágrima derramada, a cada dia que se passa, a cada noite em que passo horas deitado ao lado de alguém que não é quem eu quis para mim. Ou seria eu que não quero mais ninguém, de tão velho que me tornei?

Estou tão velho, não me sinto feliz, a felicidade parece cara. Tão cara! Mas... "Caro é transformar-se num arremedo de si próprio a ponto de nem se reconhecer mais." E eu não me reconheço, perdi minha juventude tão rapidamente, já estou tão velho por dentro, o ser que fala não sou mais eu.

Velhice maldita, 130 anos mal vividos, vou para a ponte. Estou sentindo o vento soprar sob meus braços que são como asas agora. "Esse vento sob minhas asas... Eu não mando mais em nada, sei que é alto, mas eu vou pular." Vou contar até três e sentir o vento acelerar-se sobre mim. Mais uma vez, vou me lembrar de tudo o que ouvi, tudo o que deixei me abalar, das escolhas erradas que fiz, dos pensamentos que deixei de ter e do caminho que segui que me levou a isso. É, cheguei ao fim da vida, tão velho por dentro, inteiramente cansado, terrivelmente sufocado pelo mundo e por mim mesmo. Hora de partir...

Um, dois, três.

(Jhonatan Veloso)

***

Crônica baseada nas músicas "130 anos", da Pitty, e "The Older I Get", da Skillet.

Obs.: As partes em parênteses e itálico são trechos retirados das músicas.

Abismo da alma


Abismo da alma

O que você faria se eu sumisse? Amanhã?
Está tão difícil para mim,
Parece que a tempestade passou,
Mas ainda ouço o som dos trovões aqui dentro.

O que você faria se eu partisse? Hoje?
É tudo tão complicado,
Mais ainda quando tento controlar o choro,
E as lágrimas me afogam em solidão.

O que você faria se eu pulasse? Agora?
A vida está aprontando demais comigo,
Nunca quis pular, partir, sumir,
Mas estou sendo empurrado para a ponta do precipício.

O que você faria se eu não me segurasse? Aqui?
E talvez eu não queira mesmo mais suportar, me segurar,
Somos programados pra cair, talvez lá embaixo não haja dor para mim,
Me desculpe, adeus.

(Jhonatan Veloso)

O Rei e a Bruxa


O Rei e a Bruxa

Era uma vez um Rei muito bom, que fazia de tudo o que estava ao seu alcance para proteger a todos do seu reino. Mas um dia ele se casou com uma bela e exuberante mulher.

Seus homens disseram-lhe que ela era boa e o que sua vida em crise precisava, e foi por isso que ele se permitiu amá-la cada dia mais.

Só que, um dia, a agora Rainha mostrou-lhe quem realmente era: por baixo dos penetrantes olhos azuis, da pele branca e limpa, dos cabelos cacheados e sedosos, havia uma bruxa.

Quando o Rei se deu conta do monstro que colocara para governar seu reino, não pensou duas vezes em acabar com o casamento, mas a bruxa velha tinha um segredo que o faria tomar a maior decisão de sua vida, ela estava grávida.

O soberano então decidiu que não faria nada contra a mulher, não ainda, e suplicou que a mesma mantivesse seu feitiço, o que escondia seu verdadeiro eu. Ela concordou e durante nove meses gerou a criança.

Nesse tempo, o Rei evitou contato com a bruxa dentro de sua fortaleza impenetrável que era o seu castelo, apenas mãos dadas quando tinham de ser vistos em público, mas todos os criados sabiam que o casal estava estranho, alguns até suspeitaram que a criança no ventre de sua majestade fosse de outro homem que não o Rei.

A bruxa sabia que a alteza faria algo para afastá-la de seu bebê, por isso exigiu que o parto fosse realizado por uma conhecida dela, cujo nome ser nenhum do reino ouvira antes falar.

O dia em que seu filho iria nascer chegou, com as dores. A parteira logo veio, com uma trouxa cheia de panos nas costas. Trancando-se no quarto, a mulher fez o parto da bruxa, que segurou a criança nos braços e olhou-a bem no fundo dos olhos enquanto podia. Sua conhecida foi embora, mas ninguém notou que sua trouxa nas costas parecia maior.

O Rei entrou no quarto e tomou a criança, uma linda menina, dos braços do que todos achavam ser uma linda Rainha e no mesmo momento acusou-a de traição, revelando seu segredo, fazendo com que todos soubessem que ela era uma bruxa.

A mulher foi banida do reino, sem direito a nenhum bem do Rei, e a criança recebeu a visita de uma curandeira que garantiu que a mesma não era feiticeira como a mãe. O Rei voltou à sua vida infeliz de antes, agora com uma criança.

O que ninguém nunca soube foi que a Rainha estava na verdade grávida de gêmeos, ficando com um dos bebês para si, pois já esperava que o Rei a expulsasse.

Quem era o mal da história: a bruxa que utilizou de feitiçaria para esconder sua feiura sem ferir a ninguém ou o Rei que separou uma mãe do seu próprio filho?

(Jhonatan Veloso)